Roteiro: o vendedor que transformou um Celta de 30 mil num carro de 70 mil
Essa semana viralizou o vídeo de um vendedor de carro que vendeu um celtinha usado por mais de setenta mil reais. O carro que na tabela FIPE tá em torno de trinta mil.

E o mais surreal não é nem isso. É que, num outro vídeo, esse mesmo vendedor aparece olhando na cara do cliente e dizendo que, se a parcela ficar apertada, é só rodar de Uber no fim de semana pra conseguir pagar.
E não é pra menos: o cara tá levando pedrada de todo lado. Mas afinal, tem culpa ele? Ou é dos bancos? Essa história tem muita coisa errada, então bora comigo, porque hoje tem muita lição pro seu bolso.
Vem comigo que eu te conto.
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Bom, se você caiu de paraquedas, deixa eu colocar o vídeo aqui pra gente ficar na mesma página.
O personagem da nossa história é o Daniel Ribeiro, dono da DSM Multimarcas, de Curitiba, Paraná.
Ele tá recebendo chuva de hater todo dia, e se defendeu jogando a culpa no banco e no governo. Será? Já quero ir ouvindo a sua opinião nos comentários.
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APRESENTANDO O NOSSO “HERÓI”
Uma coisa a gente não pode negar: o Daniel é cara de pau pra caceta. Como todo vendedor tem que ser em algum nível, claro. Sem ego. Ele se gaba de vender um carro de 100 mil em 6 minutos. 6 dígitos em 6, nem é 6 em 7. Chupa Erico Rocha
Ele grava as negociações com os clientes. Já tá com mais de 700 mil seguidores no Instagram. Dá treinamentos, palestra de venda, e tudo mais.
Uma dessas gravações foi essa que estourou.
O comprador queria um Celta, saiu de lá com dívida, remorso e desilusão.
Entrada baixinha, parcelas longas e um somatório que, se você fizer a conta, chega fácil nos sessenta, setenta mil reais. Jajá a gente vai por no grafíco pra você ver.
Pelo menos levou o carro limpo, polido, higienizado, óleo trocado. Faltou dizer que os pneus iam cheios de ar também, pra ficar mais irresistível.
Pagou mais que o dobro do valor real do carro. Pra quando terminar de pagar, provavelmente, o carro valer metade da fipe de hoje.
O Daniel sabe que venda de carro é algo emocional, não técnico. É a realização de um sonho, muitas vezes. Então a pessoa não tá ali pela matemática. Brasileiro então olha só se a parcela cabe no bolso, nessa hora não tá nem aí pra taxa de juros.
E o nosso caro vendedor torce a faca mesmo. Tem música, papel picado, aquela pressão indireta pra fechar.
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CALMA QUE PIORA
Mas se você acha que já acabou, Jéssica, o segundo vídeo, é pior. Nosso herói que não usa capa nem calculadora, aparece conversando com outra vítima, digo, cliente que tá em dúvida se consegue bancar as parcelas. Olha a solução que o mestre dá, para o coitado do cliente.
Ou seja, o próprio vendedor tá enxergando que aquela prestação não cabe no orçamento do coitado. Tá vendo claramente. E mesmo assim empurra. E ainda sugere que a pessoa renuncie ao descanso, à família, à folga do sábado e do domingo, pra conseguir honrar uma dívida que ela nem assumiu ainda. Aí não deu outra: a internet pegou esse vídeo e fez uma bola de neve. Veio crítica pesada, gente chamando o cara de explorador e coisa pior: até ameaça velada de ir de vasco.

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ELE RESPONDEU (MAS SERÁ QUE CONVENCEU?)
E aí ele respondeu. A resposta é importante, vale a pena a gente olhar com calma.
O Daniel escreveu, com todas as letras, o seguinte: o valor que entra na conta da loja é o valor anunciado do carro. Os juros vão pro banco. O IOF, as taxas de cartório, o seguro prestamista e o restante dos impostos vão pros bancos e pro governo. Então não venham encher o saco dele. Em parte ele tá certo. Em parte. Só que a parte que ele não conta é justamente onde mora o problema. Deixa eu desmontar pra você passo a passo.
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QUEM GANHA NESSA HISTÓRIA
Quando você financia um carro, existem três bolsos diferentes recebendo o seu dinheiro. O primeiro bolso é o da loja, e isso é o valor anunciado do carro.
Se o Celta tava a trinta mil, trinta mil é o que cai pra ela. O segundo bolso é o do banco. O banco empresta o dinheiro pra você poder pagar a loja à vista, e cobra juros em cima disso.

Juro de financiamento de veículo, segundo dados recentes do mercado, tá em média em torno de um e meio, dois por cento ao mês pra carro novo, desde que a pessoa tenha um bom perfil de crédito.
Quando o carro é usado, e ainda mais quando tem mais de dez anos igual um Celta 2012, a taxa sobe tranquilamente pra três, três e meio, até quatro por cento ao mês.
Detalhe: O Daniel disse que foi justamente o caso, somente uma financeira tinha aceitado o risco de emprestar dinheiro pra aquele cliente. Daí aqueles juros pornográficos lá.
O terceiro bolso é o do governo, com IOF, taxa de cartório e impostos embutidos. Quando você soma essas três fatias, o carro de trinta mil chega nos setenta.
É matemática simples, só que a maior parte das pessoas nem quer fazer essa conta. Afinal, é sonho, quanto vale o seu? Mas até que o sonho vira pesadelo, na hora que chegam as parcelas que não tem fim e os juros de se viver num país quebrado como o nosso.
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VAMOS FAZER AS CONTAS

Deixa eu traduzir isso em números pra ficar concreto na sua cabeça.x
Celta usado de trinta mil. Entrada de cinco mil. Financia vinte e cinco mil.
Se o banco cobrar três e meio por cento ao mês, em sessenta meses a parcela fica perto de mil reais.
No fim, o cliente paga cerca de sessenta mil em parcelas, mais os cinco mil da entrada.
Ou seja: o Celta de trinta mil vira mais ou menos sessenta e cinco mil.
E pra chegar perto dos setenta mil, não precisa inventar muito. Basta o carro estar dois mil reais acima do preço, ou a taxa subir um pouco, ou o financiamento ir pra setenta e dois meses. Ou seja, o cliente praticamente paga dois Celtas pra levar um.
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O VENDEDOR TAMBÉM GANHA NO PARCELAMENTO
Agora olha com atenção o que o vendedor tá dizendo quando joga a culpa no banco. Ele diz que o banco é quem ganha com os juros. Matematicamente, isso é verdade. O que ele esquece de mencionar é que pra loja dele, o melhor negócio do mundo é encaixar o cliente num financiamento longo.
Por quê? Porque se o cliente entrasse ali com os trinta mil em dinheiro vivo pra pagar à vista, ele ia negociar desconto. Ia chegar em vinte e sete, vinte e oito mil.
Como o cliente não tem os trinta mil na mão, a loja vende pelo preço cheio, sem desconto, e em muitos casos ainda recebe uma comissão do banco por ter levado o cliente pra aquele financiamento específico.
Existe interesse duplo em colocar o cliente no parcelado. A história que ele conta de que o lucro todo vai pro banco é parte da verdade, não é a verdade inteira.
Embora o próprio Daniel tenha falado que o melhor pra você é mesmo o a vista, hein? Até o vendedor tá te dando a dica:
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OS JUROS DE UM PAÍS (E COMPRADOR) ENDIVIDADO
Pra você entender o tamanho do pepino, a taxa Selic hoje tá em catorze vírgula setenta e cinco por cento ao ano. Isso é o custo mais barato do dinheiro no Brasil. Por que é o mais barato? Porque é o que o governo paga se você emprestar dinheiro pra ele.
E por inscresça que parível, o governo é a parte mais confiável dentro de uma economia. Por que? Porque goste você ou não, ele tem a máquina de reais. Ele imprime e ponto.
Agora me diz: uma financeira tem a opção de ganhar quase 15% sem risco nenhum, emprestando pro governo no Tesouro Selic. Por que carambas ela emprestaria pro comprador do celtinha a 13, 14%? Que tem risco infinitamente maior? Não vai rolar.
Quando o banco empresta pra você financiar um carro, ele tem que ter lucro. Ele cobra juros em cima desse custo base, até pelo risco de calote mesmo.
Com a Selic nesse patamar, o crédito no varejo sai salgado. E quem sofre é a família brasileira comum.

A gente tá falando de um país em que mais de oitenta por cento das famílias brasileiras têm alguma dívida. Oitenta por cento. É o maior nível da série histórica, desde que essa pesquisa começou, em dois mil e dez.

E quase trinta por cento dessas famílias tá inadimplente, com conta em atraso. A máquina de crédito tá rodando muito mais rápido do que a capacidade de pagamento das pessoas.
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ASSUMIR A RESPONSABILIDADE SOBRE O NOSSO DINHEIRO
O ponto que eu mais quero deixar claro pra você nesse vídeo é esse que vem agora. Você poderia falar que o cara é inescrupuloso? Que não tem alma, que não pensa nos outros? Que faz tudo por dinheiro, que é ganancioso?
Olha, você pode até ter um ponto. Mass…
Com ética ou não, ele tá fazendo o trabalho dele, que é vender carro.
Esperar que um vendedor de carros cuide do SEU bolso é o mesmo que esperar que o gerente do banco te mande um investimento bom pra você e ruim pra ele. Ou assesor de investimentos também, que gira a sua carteira não porque é bom pra você, mas porque gera comissão pra ele.
Por isso que eu criei uma CONSULTORIA, que não tem comissão de produtos e nem pode ter, perante a CVM.
Mas assim, a função de vendedor é bater meta. O consumidor que sai prejudicado desse tipo de negociação não é vítima de um vilão genial.
É consequência de uma combinação explosiva: vendedor fazendo o trabalho que é esperado dele, sistema financeiro cobrando caro, governo arrecadando em cima de tudo, e um comprador desavisado no meio do sanduíche, sem calculadora, sem educação financeira, emocionado, sem tempo de respirar antes de assinar o papel.

Só poderia ter uma nota melhor que “não recomendada” no reclame aqui, né, Sr. Daniel? Me ajuda a te ajudar.
Mas daí eu não sei, pode ser preconceito desse que vos fala. Mas EU não compro carro de estacionamento, ou garajeiro, dependendo de como fala na sua região. Você confia, já passou algum perrengue? Manda aqui que eu vou ler.
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A LEI TÁ AÍ, CAI QUEM QUER
Mas tem duas coisas aqui. Existe lei que foi feita pra proteger o consumidor. Mas diz pra mim: o consumidor SABE o que fazer, tem ideia de juros, essas coisas todas?

O Código de Defesa do Consumidor, obriga o vendedor a informar a soma total a pagar, com e sem financiamento.
Antes de assinar qualquer contrato de financiamento, o vendedor ou o banco tem que te entregar, por escrito, o Custo Efetivo Total, o famoso CET.
O CET mostra em percentual ao ano quanto você vai pagar de verdade no final da operação, com tudo embutido: juros mais IOF mais seguro prestamista mais tarifa de cadastro.
Detalhe: o prestamista é o que garante o pagamento da dívida ao banco caso você for tomar um café com Deus pai presencial. Masss… Ele não é obrigatório e não pode ser embutido sem consentimento (venda casada).
Se esse número do CET não foi apresentado na hora da venda, o contrato tá defeituoso. Só que quantas pessoas pedem o CET antes de assinar? Pouquíssimas. Quantas entendem? Menos ainda. A maioria assina olhando só o valor da parcela mensal.
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E AGORA, DINHEIRUDO?
O que eu quero que fique pra você é o seguinte. Crédito no Brasil é terrível. É pra quebrar quem precisa dele, até em um negócio: você tem que ter lucro no negócio, incluindo sobreviver aos impostos. E depois ainda tem a conta do banco, faça chuva ou faça sol. E se você tiver MUITA sorte, ainda sobra dinheiro pra você.
Qual a probabilidade disso dar certo?
Dinheiro dos outros custa caro. Às vezes muito mais do que dinheiro. Pode custar até a união da sua família, a sua sanidade mental.
Pega esse mesmo Celta do vídeo como exemplo. Se o comprador, em vez de entrar num financiamento longo de sessenta parcelas apertadas, tivesse juntado por dez ou doze meses e comprado um carro mais barato à vista, ou até o mesmo Celta com uma entrada bem maior e prazo curto, o total pago cairia pra menos da metade.
A matemática é impiedosa. Juros compostos sempre correm pro lado de quem empresta quando o prazo é grande.
Se a parcela tá tão apertada que o próprio vendedor já tá sugerindo que você dirija de Uber no fim de semana pra honrar, aquele carro não é pra você ainda. Isso vale pra quem ganha pouco e vale pra quem ganha bem. A questão é o carro não caber no orçamento que você tem amanhã. Existe uma diferença enorme entre o que a gente deseja e o que a gente pode no momento presente.
Porque o Daniel não vai cuidar do seu bolso. O gerente do banco também não. O governo, esse então, menos ainda.
O único lugar onde essa responsabilidade mora de verdade é dentro da sua casa. É você puxando a calculadora, abrindo uma planilha simples, fazendo a conta antes da emoção do carrinho novo na sua garagem.
Aquele Celta virou piada na internet, mas pra pessoa que vai pagar por ele nos próximos cinco anos, não tem graça nenhuma.
E o nosso canal justifica a sua inscrição justamente por te livrar dessas furadas com o seu bolso.
Mas o mercado de usados tá uma bagunça no Brasil, você já viu? O que você acha?
